quinta-feira, 29 de abril de 2010

Uma pitada de Nélida Pignon

"Amanhã é sexta-feira, talvez regresses para tomar meu coração. Como das outras vezes. Só que a cada volta tua, e sempre que te oferto o coração, sinto que te tenho como se te perdesse. Tenho-te apenas o tempo de acostumar-me a perder-te para sempre. Assim, eu faço discreto pedido, não me arraste contigo quando te fores. Ou não me aceites, ainda que te peça para seguir o teu caminho. Não quero despojar-me de um coração que te ofereci com tanta opulência. Mas, se o quiseres realmente levar contigo, deixes ao menos algumas de suas fibras em minha casa. Com elas apenas hei de encontrar um outro retrato vivo que, sem me desprover, há de me fazer derramar lágrimas de alegria, enquanto eu lhe esteja propondo os últimos pedaços de coração que meu corpo sedento de amor ainda produzirá.




Do teu camponês que se despede sem saber que é para sempre."


(trecho do conto "Disse um campônio à sua amada" de Nélida Piñon , extraído do livro "O calor das coisas")

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